Spring Talks

The Sound of Silence (part II)

Posted in Uncategorized by Spring on 8 November, 2008

Acabadinha de chegar a Turim, depois de 10 dias seguidos na Serenissima, dou por mim aflita para atravessar a rua, confusa com o sentido do tráfico (um mix continente-londres em luta no meu cérebro), a sentir-me tonta com a velocidade das coisas à minha volta, incomodada pelo ruído, pelas luzes, pelo fumo, pela poluição que consigo ver e cheirar (e não cheira nada bem). Os carros parecem monstros assutadores. Os semáforos inutilidades e a excessiva luz nocturna da cidade impede-me de ver as estrelas, que têm sido a minha grande companhia das últimas noites. Ambulâncias, gente que grita. Electricos que passam. O inferno sob a forma da modernidade.

É impressionante como viver em Veneza me está a mudar. Começo a detestar as cidades com carros, antros escuros, porcos, poluídos. Onde tudo parece acontecer mais depressa quando afinal é exactamente o tempo que nos estão a roubar. A serenidade de ir a A a B a pé, sobe ponte-desce ponte, a possibilidade de pensamento que isso nos oferece, o perdermo-nos sabendo que nunca estamos completamente perdidos.

As ruas que não têm nomes de pessoas mas de coisas, não prestando esse morboso elogío funebre que caracteriza as redes de grande parte das cidades, feitas de mortos: percorremos, atravessamos, recordamos mortos e, na grande maioria dos casos, esses mortos já nem têm uma memória a eles associada. Quem sabe que o Almirante Reis deveria ter tido mais calma e esperar um dia antes de se suicidar? Que o Colonel Combes foi um Jacobino convicto e que Scialoja foi ministro da agricultura no Reino da Sicília? Quem é que se interessa por isso?

¦Em Veneza, até os mortos têm um posto especial: a Isola de San Michele, que me recorda a Toteninsel de Bocklin: um cemitério feito ilha, onde reposam, entre outros, Diaghilev, Ezra Pound e Stravinsky. É um local angustiante, com uma aura pesada, mas de uma beleza infinita. Se Veneza não fosse toda ela atravessada por uma calma profunda, ousaria falar em sublime.¦

A calma imensa de não sentir um rumor que não seja o da água. De não sentir os gazes produzidos pelos automóveis. De não ver um edifício com caixilhos de alumínio, um neon na estrada, de não ouvir uma buzina, um movimento brusco ou uma bomba de gasolina.

Veneza é um privilégio. É a cidade perfeita, porque não é uma verdadeira cidade.

Viver em Veneza é um luxo. E agora que sei disso, não quero abdicar dele.

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