Spring Talks

A vida: Imanência…

Posted in Uncategorized by Spring on 1 July, 2009

Diversas inquietações durante estes dias, este post mais poderia ser um email para o meu analista, talvez ainda o transforme e recicle.

A primeira é a conclusão de que a morte só acontece aos outros.

Verdade de La Palice, talvez.

Tristeza transformada em cinismo, é o mais provável.

Para além disso é a morte dos demais é a derradeira prova da nossa morte, o que cria um contrasenso. Seja. É um pouco como a tristeza transformada em cinismo: um banquete de oxímoros.

A segunda inquietação relaciona-se com perceber que prefiriria (num condicional que deixa muito a desejar) a versão da cegonha que vem de paris do que a explicação biológica: evitavam-se muitos estragos se tivesse como progenitora uma ave, por sinal bem elegante. Sobretudo, acho que se suprimia esta antipatia irracional com o português e o portugal: a língua-mãe, a terra-mãe.

A terceira, mais apaziguadora, é ver como a biologia nem sempre é canalha: há o outro lado: perde-se uma figura de referência para se ganhar a descoberta gradual e distante de um pai que para sempre julgávamos perdido.

A quarta é perceber que a família, que até agora pouco o nada ocupava do nosso pensamento, de repente se tornou extremamente presente. Familia e fome (faminem em latim) terão a mesma origem: um duplo e vampírio nutrir-se e ajudar-se. Brrrrr

Yoga: Imanência pura. A única coisa que me salva da loucura nestes dias. Horas, dias, sem fim. Um vício, uma compulsão, uma necessidade básica. Passaria os dias inteiros em posturas absurdas, a sentir o peso do corpo contra o chão, a entrar cada vez mais dentro de mim mesma. Eu e eu. Em circuito fechado. Mais ninguém.

Uma raridade: deixar de fomar para emagrecer e descobrir que o 27 da levis é o mesmo de há 15 anos atrás. Para quê? Não sei. Mas não deixa de me fazer feliz.

Não aguentando a pressão, mandei o namorado às ortigas. Só estou calma e em paz sozinha. Um dia o meu analista vai-me explicar porquê. Até lá deito homens fora como quem manda bolas de papel para o caixote do lixo. E não é por falta de amor, não é por falta de vontade, nem sequer é por desejo de liberdade: é por incapacidade.

Um dia a minha mãezinha, que tanto me fez sentir a mais, que tanto cobrou cada gesto seu na minha direcção, que tanto me fez sentir que a incomodava, disturbava, que a obrigava a eternos sacrificios, terá de me explicar porquê tantos sentimentos de culpa. Mas talvez este seja só um suspiro maldoso, mesquinho e inútil. Desimanente portanto.

5 Responses

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  1. Claudette said, on 1 July, 2009 at 5:20 pm

    Sabes o que te digo? Tu precisas é de um gato.

    (quantos queres? Os irmão do Ruca ainda não têm dono…)

  2. Miss Spring said, on 1 July, 2009 at 5:48 pm

    e’ verdade!! um gato e’ que era!
    mas com a vida que eu levo… coitadinho… nao da’, senao ja’ o tinha!!

  3. Inês said, on 2 July, 2009 at 2:37 am

    Ai, tantas inquietações, Mulher. Tu vinga-te no yoga.

    E por falar em gato… o que é feito dos teus gatos?

  4. francisco carvalho said, on 2 July, 2009 at 3:00 am

    Lamento, apesar de tudo.

    A verdade é que trazemos no rosto o rosto de outros, no sangue o sangue, na pele a pele, nos gestos o mimetismo de outros gestos, os defeitos e as qualidades de outros…
    Uma carga medonha que temos inelutavelmente que transportar e tão difícil de gerir…

    Gostei muito do post.

  5. joao said, on 2 July, 2009 at 12:56 pm

    o que importa são as Levis!


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